Tortura, Jogo e a Experiência Negra

Autores

  • Aaron Trammell University of California, Irvine, Califórnia, Estados Unidos
  • Alexander Carneiro Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Paraíba, Brasil https://orcid.org/0000-0003-1470-7595
  • Lucianna Furtado Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil https://orcid.org/0000-0002-4818-9370

DOI:

https://doi.org/10.30962/ec.2618

Palavras-chave:

play studies, tortura, raça

Resumo

Este ensaio considera como a experiência do povo negro descendente de escravos na América do Norte nos ajuda a repensar uma definição de jogo que tem sido amplamente determinada por pensadores e filósofos trabalhando dentro de uma tradição branca europeia. Essa tradição do jogo, teorizada mais famosamente pelo historiador holandês Johan Huizinga, pelo sociólogo francês Roger Caillois, pelo psicólogo suíço Jean Piaget e o neozelandês Brian Sutton-Smith, lê o jogo em um sentido majoritariamente positivo e garante que certas práticas, nomeadamente a tortura, são tabu, e, portanto, não podem ser jogo. Eu argumento que essa abordagem sobre o jogo é míope e se relaciona com um discurso global preocupante que torna invisíveis as experiências de povos negros, indígenas e pessoas de cor. Em outras palavras, ao definir o jogo apenas através de suas conotações prazerosas, o termo mantém um viés epistêmico em relação às pessoas com acesso às condições de lazer. De fato, a tortura nos ajuda a desenhar um quadro mais completo onde os potenciais mais hediondos do jogo podem ser abordados juntamente com os mais prazerosos, mesmo que, ao fazer isso, o trauma da escravidão seja relembrado. Ao repensar esta fenomenologia, eu foco em detalhar os modos mais insidiosos em que o jogo funciona como uma ferramenta de subjugação. Uma que machuca tanto quanto cura e uma que tem sido complacente com o apagamento sistemático de pessoas negras, indígenas e de cor do domínio do lazer.

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Biografia do Autor

Aaron Trammell, University of California, Irvine, Califórnia, Estados Unidos

Aaron Trammell, PhD, é Professor Assistente de Informática na University of California, Irvine. É graduado pela Rutgers University School of Communication and Information desde 2015 e passou um ano estudando na Annenberg School of Communication na University of Southern California como pesquisador de pós-doutorado. Aaron foca sua pesquisa em revelar as conexões histórias entre jogos, play e o complexo militar-industrial dos Estados Unidos. Ele tem interesse em como ideologias políticas e sociais são integradas na prática de design de jogos e como essas perspectivas são negociadas dentro dos imaginários dos jogadores. Além de seu trabalho na revista Analog Game Studies, ele também é Editor Multimídia na revista Sounding Out!

Alexander Carneiro, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Paraíba, Brasil

Bacharel em Design pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e mestrando em Comunicação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Estuda jogos e seus fenômenos relacionados, com foco em jogos de tabuleiro analógicos e RPGs através das lentes da comunicação, da política e do trabalho. É integrante do Laboratório de Pesquisa em Mídia, Entretenimento e Sociedade (LENS) e cria jogos em suas horas vagas.

Lucianna Furtado, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil

Doutoranda e mestre em Comunicação e Sociabilidade Contemporânea pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (PPGCOM-UFMG), na linha de pesquisa em Processos Comunicativos e Práticas Sociais. Integrante do Coragem - Grupo de Pesquisa em Comunicação, Raça e Gênero e bolsista de doutorado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

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Publicado

12-07-2022

Como Citar

Trammell, A., Carneiro, A., & Furtado, L. (2022). Tortura, Jogo e a Experiência Negra. E-Compós, 25. https://doi.org/10.30962/ec.2618

Edição

Seção

Artigos Originais